Um Novo Lugar para a Utopia – René Mendes

Um Novo Lugar para a Utopia

utopia

 

Parto de uma contradição: se utopia é, etimologicamente, a agregação da partícula grega où, não, negação, com a partícula tòpos, lugar, e, portanto, palavra com significado literal de não lugar, sem lugar, nenhum lugar, como abordá-la na perspectiva de lugar, e até de um novo lugar? Os organizadores das provas da Fuvest, que seleciona candidatos a uma vaga na Universidade de São Paulo – USP, idealizaram um novo lugar para a utopia: colocá-la como tema de redação da 2ª fase do vestibular de 2016.

Não conhecemos o que os 23.908 candidatos escreveram, e o conjunto das redações mereceria uma análise muito bem vinda sobre o atual pensamento dos jovens vestibulandos a respeito da palavra e de seus significados. Alguns candidatos que foram entrevistados à saída da prova externaram sua estranheza pela escolha do tema, e até seu temor pelas utopias, considerando-as, mesmo, perigosas para o país e para o desenvolvimento…

Por certo, não foi a primeira vez que as utopias foram consideradas perigosas e indesejáveis ameaças ao status quo social, político, econômico, e mesmo cultural e religioso. Thomas More (1477-1535), quando inaugurou o uso do termo utopia, que deu título à sua obra, publicada em 1516, situou sua cidade ideal numa ilha ou local imaginário, o qual, distante ou perto no espaço, poderia tornar próximos e reais seus sonhos de um mundo melhor (ele já pensava que um outro mundo seria possível…). Morreu decapitado, por ordem de Henrique VIII. Exatamente 400 anos depois, foi canonizado pelo Papa Pio XI.

Muito antes de More, Platão situara suas utopias sobre a Justiça em uma imaginária República, a qual, apesar de ter servido e ainda servir de inspiração para muitos, nunca se concretizou na sua plenitude, nem no espaço e nem no tempo. Tommaso Campanella (1568-1639) localizou suas utopias em uma Cidade do Sol (1602), mais perto, talvez, de um lugar mais milenarista que utópico, A Cidade de Deus, de Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona. Francis Bacon (1560-1626) localizou a sede de suas utopias num lugar imaginário que denominou A Nova Atlântida (1623). Étienne Cabet (1788-1856) situou suas utopias na Icária (1840), a qual, muito embora existente enquanto nome de uma pequena ilha grega no Mar Egeu, não sediou fisicamente a utopia. Seu nome serviu como “sede provisória” de ideias ousadas, tanto para projetos experimentais no Novo Mundo (que não sobreviveram), como para inspiração de “socialistas utópicos”, do século XIX, alimentando, também, as raízes das ideias sociais de Marx (1818-1883) e de Engels (1820-1895), entre outros. Icaria homenageava o mitológico Ícaro, aquele que tentara deixar Creta, voando. Dai a analogia com as utopias, tentativas de voar, no seu sentido figurado que até hoje utilizamos. Os “icários” e assemelhados do século XIX localizaram seus sonhos utópicos (e sua luta) mais proximamente, tanto no espaço como no tempo, focando temas e lutas bem terrestres, no chão de fábrica, literalmente…

Enfim, após uma breve viagem no tempo, à procura dos lugares onde as utopias teriam sido localizadas, retornamos ao movente inicial dessa reflexão. Afortunadamente, a utopia foi, recentemente, introduzida na prova de quase 24 mil vestibulandos, e ainda não conhecemos as “viagens” que os jovens fizeram em suas redações. Qualquer que seja o resultado, estamos felizes pela escolha do tema, pois a escolha pode estar sinalizando certa reabilitação ou resgate do tema. Lembramos que Gilberto Dupas, ilustre pensador morto em 2009, escrevera artigo para a Folha de São Paulo (5/5/2008), intitulado Acabaram as utopias?[1] “Assim como a esperança, a utopia não morrerá nunca. Mas seu destino parece sempre fazer morada em outro lugar”, concluía o autor.

Talvez fosse esse o momento para, além de plantar a utopia nas provas de tanta gente jovem e promissora, plantá-la, também, no aqui e agora do mundo do Trabalho! O despertar que proponho, na verdade, não deixa de ser uma forma de resgatar uma utopia de mais de 400 anos, quando Campanella prescrevia que os trabalhadores de sua cidade imaginária escolheriam suas profissões livremente; seriam respeitados e honrados pela sociedade, e o trabalho não lhes prejudicaria a saúde. Pelo contrário, dizia Campanella: o trabalho não causaria dano à sua saúde; ela seria conservada, e mais: a saúde poderia até melhorar, tornar-se mais vigorosa, graças ao trabalho. Mas isso seria na Cidade do Sol… E na cidade dos homens (não a de Santo Agostinho, mas a nossa)? Essa utopia nunca se concretizou como possibilidade real e alcançável, utilizando a ênfase de Ernst Bloch (1885-1977) em sua obra Princípio Esperança. Não por faltarem conhecimento, tecnologia e meios, mas existirem, em excesso, insensibilidade, omissão e negligência, creio eu…

Afinal, para que servem as utopias? Atribui-se ao jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, morto em abril de 2015, a mesma pergunta, ou melhor, sua encantadora resposta: Para que serve a utopia? / Ela está diante do horizonte. / Me aproximo dois passos / e ela se afasta dois passos. / Caminho dez passos / e o horizonte corre / dez passos mais à frente. / Por muito que eu caminhe / nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? / Serve para isso: para caminhar.

Finalizo com uma provocação e um convite: como médico, militante e estudioso do campo da Saúde Pública e da Medicina e, em especial, da área que enfoca os problemas de saúde dos trabalhadores e das trabalhadoras, e vendo, todos os dias, como eles e elas adoecem, se incapacitam e morrem – aqui e agora, ou melhor, ainda agora – pergunto se não seria este o momento para plantarmos, novamente, a utopia no concreto mundo do Trabalho? E no concreto e real mundo vivo dos trabalhadores e das trabalhadoras, buscando – talvez – tornar real a utopia de Campanella? Aliás, também minha.

[1] Este artigo e muito outros podem ser localizados no livro Desafios da Sociedade Contemporânea: reflexões de Gilberto Dupas, publicado pela Editora Unesp, em 2014.

 

*René Mendes é médico especialista e professor de Saúde Pública e Medicina do Trabalho, com mais de 40 anos de experiência profissional, com atuação no Ministério do Trabalho, Ministério da Saúde, Fundacentro e em organismos internacionais como a OPAS/OMS e OIT. É autor de livros referência nas áreas de medicina e patologia do trabalho.

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