No Dia do Médico do Trabalho, uma homenagem a quem traduziu o livro de Ramazzini no Brasil – René Mendes

No Dia do Médico do Trabalho, uma homenagem a quem traduziu o livro de Ramazzini no Brasil

O dia 4 de outubro é celebrado como o “Dia do Médico do Trabalho”, por ser a data em que, em 1633, em Carpi, na Itália, nascia Bernardino Ramazzini, autor da obra clássica “De Morbis Artificum Diatriba”, publicada em 1700. Mas como e quando o livro de Ramazzini, escrito em Latim, tornou-se conhecido no Brasil e acessível em nosso idioma?

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Ao responder a esta pergunta, é um prazer e uma emoção grande apontar para o firmamento, onde há milhões de estrelas, mas ninguém como Raimundo Estrela (1911-2000), um ilustre médico do trabalho e professor baiano, a quem tive o privilégio de conhecer, conviver e, ainda, de visitá-lo poucos meses antes de ele morrer, em 11 de novembro de 2000, aos 89 anos. A grandeza dessa estrela nunca foi constituída pela obsessão da busca de brilho próprio, e pela vontade de “aparecer”, posto que modesto, discreto e simples, ainda que inteligente, culto e brilhante.

Para os que, como eu, tiveram o privilégio de conhecê-lo e conviver com ele, o nome do Dr. Raimundo Estrela está intimamente associado ao nome de Ramazzini, por ser, no meio brasileiro, um de seus mais autênticos e dignos cultores. Graças ao Dr. Raimundo Estrela, a obra-prima de Ramazzini – o Pai da Medicina do Trabalho – publicada pela primeira vez em Modena, na Itália, em 1700, tornou-se o elegante e acessível tratado sobre “As Doenças dos Trabalhadores”, em Português, primeiramente publicado no Rio de Janeiro, em 1971.

Para os médicos do trabalho de uma geração anterior, que foram os nossos mestres e paradigmas de referência profissional e ética, tais como Thalita do Carmo Tudor (1913-2003), Oswaldo Paulino (1915-2006), Diogo Pupo Nogueira (1919-2003) e Bernardo Bedrikow (1924-2008) – além dos que nos dão a alegria de sua presença e inspiração – como Daphnis Ferreira Souto, entre outros – o nome do Dr. Raimundo Estrela era sinônimo de convívio estimulante e alegre. Sua vida e obra são uma síntese tão rara da integridade, da inteireza, do coração puro e desapegado das vaidades mais frívolas e supérfluas, em pessoa de excelente formação em Medicina, em História, e, em especial, na arte de escrever bem.

Pois bem, o Dr. Raimundo Estrela era baiano, nascido em Casa Nova, cidade que o lago de Sobradinho cobriu. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia, em 1937. Exerceu a profissão em circunstâncias nem sempre fáceis e cômodas, como por exemplo, o fez no início de sua carreira, no lugarejo de Pau-de-Colher, nos confins do município onde nasceu. Poucos, talvez, sabem que Pau-de-Colher, entre 1934 e 1938, foi o epicentro de um “pequeno Canudos” do fanatismo messiânico, e que o Dr. Raimundo Estrela ali trabalhou como cirurgião-de-guerra, como médico da Prefeitura, e depois para lá retornou como Prefeito de Casa Nova, nomeado ao final da terrível e sanguinária convulsão social. Ali trabalhou de 1938 a 1940, mudando-se, então, para a cidade de Ilhéus, onde permaneceu por cerca de quatro anos.

De 1944 a até o início dos anos 1990, o Dr. Raimundo Estrela viveu no Rio de Janeiro, onde exerceu a Medicina e o Magistério. “Nunca fiz bico dos meus empregos. Por isso não consegui de meu chefe do Serviço Médico do Ministério da Educação e Cultura, a transferência para a Universidade do Brasil, requisitada pelo Reitor Pedro Calmon”, registrou o Dr. Estrela, em uma de suas recentes obras.

Como Professor da Cadeira de Higiene Industrial, na Escola Técnica Federal, o Dr. Raimundo Estrela sempre procurou preparar suas aulas e textos, buscando nas fontes bibliográficas primárias, as informações autênticas e cuidadosamente garimpadas. Dele são a descoberta e o estudo das primeiras Teses de Medicina no Brasil, abordando, já no século XIX, temas de Medicina do Trabalho, invariavelmente referidos ao livro de Ramazzini, provavelmente via textos franceses lidos e estudados pelos médicos àquela época. Aliás, desde 1777 o tratado de Ramazzini já se tornara acessível no idioma Francês, e eu sou um dos poucos no mundo, que tem um exemplar raro desta primeira edição francesa.

Nas décadas de 1940 e 1950, o Dr. Raimundo Estrela participou ativamente da criação e da vida da Associação Brasileira de Medicina do Trabalho (ABMT), no Rio de Janeiro, e como erudito pesquisador de História da Medicina, com ênfase na Medicina do Trabalho, o Dr. Raimundo Estrela não somente organizou e franqueou valiosa biblioteca, como ajudou a criar e desenvolver o “Clube de Ramazzini” – como se faz em outras partes do mundo – lugar que veio a se tornar ponto-de-encontro da cultura da boa Medicina do Trabalho carioca e brasileira.

Nestas circunstâncias, e como “ramazziniano” convicto e entusiasmado que era, aceitou o desafio proposto pelo Dr. Francisco Carneiro Nobre de Lacerda Filho, médico e baiano como Estrela, e dirigente da Liga Brasileira Contra os Acidentes do Trabalho, para traduzir ao português a obra-prima de Ramazzini – “De Morbis Artificum Diatriba” – que a Liga publicou, em 1971. Mais tarde, a Fundacentro republicou o livro, e para as celebrações do tricentenário do livro (2000), a Fundacentro organizou linda edição de luxo, revisada e ampliada com alguns capítulos de comentários sobre a obra, feitos por autores brasileiros, aos quais tive a honra de me juntar.

Cabe registrar que o Dr. Nobre de Lacerda Filho parece ter sido o primeiro a divulgar, no Brasil, a vida e obra de Ramazzini, quando publicou, em 1940, na revista Bahia Médica, substancioso trabalho sobre o tema. Fê-lo, outra vez, em 1956, em seu livro Homens, Saúde e Trabalho.

Refletindo sua permanente inquietude intelectual e seu extremo rigor na pesquisa histórica, o Dr. Raimundo Estrela publicou, também, interessantes estudos intitulados Dr. Antonio Neves da Rocha. Precursor da Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho no Brasil (Rio de Janeiro, Escola Técnica Federal, 1972), e Afrânio Peixoto. Pioneiro da Medicina do Trabalho no Brasil (Rio de Janeiro, Editora Cátedra, 1977). Recorde-se que o Dr. Afrânio Peixoto também era baiano como Estrela e Nobre de Lacerda Filho e, além de médico (propulsor da Medicina Legal científica no Brasil, fundada pelo também baiano Nina Rodrigues), foi também político, crítico literário e escritor.

Como grande admirador do Dr. Raimundo Estrela, e tendo tido o privilégio de poder conhecê-lo mais de perto, muito mais gostaria de dizer sobre a grandeza e o brilho desta estrela da Medicina do Trabalho brasileira. Por não ser capaz, pela enorme emoção e pelos grandes limites pessoais, de saudá-lo e de homenageá-lo como merece, tomarei emprestadas palavras bíblicas que muito parecem-se aplicar ao querido Dr. Estrela: “Os sábios resplandecerão com o resplendor do firmamento; e os que a muitos ensinam a justiça refulgirão como as estrelas, sempre e eternamente”. (Dan. 6:3).

Com a saudade, o carinho e o respeito de René Mendes.

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