O Poeta Ficou Cansado - Adélia Prado – René Mendes

O Poeta Ficou Cansado – Adélia Prado

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Pois não quero mais ser Teu arauto.
Já que todos têm voz,
por que só eu devo tomar navios
de rotas que não escolhi?
Por que não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares,
já que Tua voz reboa
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na terra
e insistes em caixeiros-viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca e fura,
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão,
me deixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
Eu só como palavras.

 

Adélia Prado (De “Oráculos de Maio”, 1999)

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A publicação de poemas sobre ângulos do mundo trabalho e sobre o valor da vida das trabalhadoras e dos trabalhadores constitui uma das expressões da luta pelo TRABALHO DIGNO E SAUDÁVEL para todos. Poemas e outras obras de arte fazem parte de nossas armas!

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