Agora Eu Quero Cantar - Mário de Andrade – René Mendes

Agora Eu Quero Cantar – Mário de Andrade

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Agora eu quero cantar

Uma história muito triste

Que nunca ninguém cantou,

A triste história de Pedro,

Que acabou qual principiou.

 

Não houve acalanto. Apenas

Um guincho fraco no quarto

Alugado. O pai falou,

Enquanto a mãe se limpava:

– É Pedro. E Pedro ficou.

Ela tinha o que fazer,

Ele inda mais, e outro nome

Ali ninguém procurou,

Não pensaram em Alcebíades,

Floriscópio, Ciro, Adrasto,

Cadê tempo pra inventar!

– É Pedro. E Pedro ficou.

 

Pedrinho engatinhou logo

Mas muito tarde falou;

Ninguém falava com ele,

Quando chorava era surra

E aprendeu a emudecer.

Falou tarde, brincou pouco,

Em breve a mãe ajudou.

Nesse trabalho insuspeito

Passou o dia, e nem bem

A noite escura chegou,

Como única resposta

Um sono bruto o prostrou.

 

Por trás do quarto alugado

Tinha uma serra muito alta

Que Pedro nunca notou,

Mas num dia desses, não

Se sabe porque, Pedrinho

Para a serra se voltou:

– Havia de ter, decerto,

Uma vida bem mais linda

Por trás da serra, pensou.

 

Sineta que fere ouvido,

Vida nova anunciou;

Que medo ficar sozinho,

Sem pai, mesmo longínquo, sem

Mãe, mesmo ralhando, tanta

Piazada, ele sem ninguém…

 

Pedro foi para um cantinho,

Escondeu o olho e chorou.

Mas depois for divertido,

Aliás prazer misturado,

Feito de comparação.

O menino roupa-nova

Pegava tudo o que a mestra

Dizia, ele não pegou!

Porque!… Mas depois de muito

Custo, a coisa melhorou.

 

Ele gostava era da

História Natural, os

Bichos, as plantas, os pássaros,

Tudo entrava fácil na

Cabecinha mal penteada,

Tudo Pedro decorou.

Havia de saber tudo!

Se dedicar! Descobrir!

Mas já estava bem grandinho

E o pai da escola o tirou.

Ah que dia desgraçado!

E quando a noite chegou,

Como única resposta

Um sono bruto o prostrou.

 

Por trás da escola de Pedro

Tinha uma serra bem alta

Que o menino nunca olhou;

Logo no dia seguinte

Quando a oficina parou,

Machucado, sujo, exausto,

Pedrinho a escola rondou.

E eis que de repente, não

Se sabe porque, Pedrinho

Para a serra se voltou:

– Havia de ter por certo

Outra vida bem mais linda

Por trás da serra! Pensou.

 

Vida que foi de trabalho,

Vida que o dia espalhou,

Adeus, bela natureza,

Adeus, bichos, adeus, flores,

Tudo o rapaz, obrigado

Pela oficina, largou.

Perdeu alguns dentes e antes,

Pouco antes de fazer quinze

Anos, na boca da máquina

Um dedo Pedro deixou.

Mas depois de mês e pico

Ao trabalho ele voltou,

E quando em frente da máquina,

Pensam que teve ódio? Não!

Pedro sentiu alegria!

A máquina era ele! A máquina

Era o que a vida lhe dava!

E Pedro tudo perdoou.

 

Foi pensando, foi pensando,

E pensou, que mais pensou,

Teve uma ideia, veio outra,

Andou falando sozinho,

Não dormiu, fez experiência,

E um ano depois, num grito,

Louca alegria de amor,

A máquina aperfeiçoou.

O patrão veio amigável

E Pedro galardoou,

Pôs ele noutro trabalho,

Subiu um pouco o ordenado:

– Aperfeiçoe esta máquina,

Caro Pedro! e se afastou.

 

Era um cacareco de

Máquina! e lá, bem na frente,

Bela, puxa vida! Bela,

A primeira namorada

De Pedro, nas mãos dum outro,

Bela, mais bela que nunca,

Se mexendo trabalhou

O dia inteiro. Nem bem

A noite negra chegou,

O rapaz desiludido

Um sono bruto prostrou.

 

Por trás da fábrica havia

Uma serra bem mais baixa

Que Pedro nunca enxergou,

Porém no dia seguinte

Chegando pra trabalhar,

Não se sabe por que, Pedro

Para a serra se voltou:

– Havia de ter, decerto,

Uma vida bem mais linda

Por trás da serra, pensou.

 

Oh, segunda namorada,

Flor de abril! Cabelo crespo,

Mão de princesa, corpinho

De vaca nova… Era vaca.

Aquele riso que faz

Que ri nunca me enganou…

Caiu nos braços de quem?

Caiu nos braços de todos,

Caiu na vida e acabou.

 

Com a terceira namorada,

Na primeira roupa preta,

Pedro de preto casou.

E logo vieram os filhos,

Vieram doenças… Veio a vida

Que tudo, tudo aplainou.

Nada de horrível, não pensem,

Nenhuma desgraça ilustre

Nem dores maravilhosas,

Dessas que orgulham a gente,

Fazendo cegos vaidosos,

Tísicos excepcionais,

Ou formando Aleijadinhos,

Beethovens e heróis assim:

Pedro apenas trabalhou.

Ganhou mais, foi subindinho,

Um pão de terra comprou.

Um pão apenas, três quartos

E cozinha, num subúrbio

Que tudo dificultou.

Menos tempo, mais despesa,

Terra fraca, alguma pera,

Emprego lá na cidade,

Escola pra filho, ofício

Pra filho, um num choque de

Trem, inválido ficou.

 

– Sono! Único bem da vida!…

 

Foi essa frase sem força,

Sem História Natural,

Sem máquina, sem patente

De invenção, que por derradeiro

Pedro na vida inventou.

E quando remoendo a frase,

A noite preta chegou,

Pedro, Pedrinho, José,

Francisco, e nunca Alcebíades,

Um sono bruto anulou.

 

Por trás da morada nova

Não tinha serra nenhuma,

Nem morro tinha, era um plano

Devastado e sem valor,

Mas um dia desses, sempre

Igual ao que ontem passou,

Pedro, João, Manduca, não

Se sabe por que, Antônio,

Para o plano se voltou:

– Talvez houvesse, quem sabe,

Uma vida bem mais calma

Além do plano, pensou.

 

Havia, Pedro, era a morte,

Era a noite mais escura,

Era o grande sono imenso;

Havia, desgraçado, havia

Sim, burro, idiota, besta,

Havia sim, animal,

Bicho, escravo sem história,

Só da História Natural!…

 

Por trás do túmulo dele

Tinha outro túmulo… Igual.

 

 

Mário de Andrade (1893-1945), em “Lira Paulistana” (1945) 

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A publicação de poemas sobre ângulos do mundo trabalho e sobre o valor da vida das trabalhadoras e dos trabalhadores constitui uma das expressões da luta pelo TRABALHO DIGNO E SAUDÁVEL para todos. Poemas e outras obras de arte fazem parte de nossas armas!

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